21/03/06

esquecida de mim

Sento-me no alpendre debruçado sobre a várzea e olho...
Perco o olhar nessa vastidão de várias tonalidades de verde com que a natureza nos brinda. Ali, mais ao longe, os salgueiros, loureiros e choupos demarcam o rio que corre cantando na sua água cristalina, sobre os calhaus rolados e que generosamente vai servir de conforto a todas as terras suas companheiras de todos os dias, saciando-lhes a sede.Aquele rio que dava a sua água para lavar as roupas dos pobres, onde eu, pequena e felina, colhia as enguias que iriam servir de ceia enquanto a mãe lavava a roupa...Lá onde nas silvas cresciam aquelas lindas e grandes amoras pretas que eram um festim para as crianças. Os lábios todos roxos do sumo delas...em alegre chilrear e gesto de dedo no ar, apontados às figuras caricatas de cada uma...
Tocam as trindades no sino da igreja. O dia cai sobre o povoado... Acabam-se as fainas, pousam-se as alfaias, colhem-se e carregam-se as ervas que servirão de alimento aos animais. Leva-se a couve debaixo do braço que servirá para a ceia. Aqui e ali acende-se uma luz, primeiro um pontinho amarelo, depois outro e ainda outro e toda a aldeia se ilumina....recolhe-se a casa, prepara-se a ceia. Acende-se o lume. De repente todo o aconchego da labareda dançando e brincando num bailado ritmado, cadenceado fulguroso e fúlvio. As trempes colocadas onde a panela será assente e servirá para cozer as batatas com as couves e o bacalhau. Comida de consoada mas que mata a fome ao longo do resto do ano, no prato dos mais pobres....
Aconchega-se o gado...
A família reúne-se ri e chora, conversa e ora antes de receber o alimento, agradece ao bom Deus que lhe permita ter mais um dia e uma outra ceia...
ao longe vão-se calando os ruidos difusos da aldeia, a família deita-se, os rumores são cada vez mais ínfimos, abafados, até se extinguirem completamente.
O gato enrosca-se na lareira onde o lume vai esmorecendo...
O céu é de um negro pleno, salpicado de pequeninos pontinhos que mais parecem pirilampos. A aldeia adormece...
Uma brisa levanta-se serena, um pouco mais agreste e vem beijar-me a face, então acordo, a imaginação tinha-me levado para um passado distante e que não volta!
mas ali fiquei a olhar, como que esquecida de mim...

7 comentários:

Strider disse...

como e bom recordar os nossos tempos de criança,,, os tempos da ingenuidade,,, em k nao pensavamos no amanha,,, nem no passado,,, limitavamos a viver o presente,,, sempre com um sorriso nos labios,,,

sao lindas as tuas palavras,,, como o desceves,,, ate parece k se sente o sabor das amoras pretas,,, sumarentas,,, nessa altura so tinha um problema,,, eram as dores de barriga por se ter comido mais k a conta,,, hehehe,,, os comprimidos ainda nao fizeram afeito,,, por isso este comentario,,,

bjinhos
paulo

SaltaPocinhas disse...

desculpa responder aqui ao teu comentário, mas não tenho o teu endereço. O meu pai está melhor mas ainda não saiu dos chamados cuidados intermédios. E realmente aquele hospital parece que é ume excepção. Felizmente não tenho grande conhecimento de hospitais, mas pelo que ouço dizer e pelo tratamento que sinto lá, deve haver diferenças enormes. Obrigada pela visita. Eu acho que ainda não conhecia o teu blog, ou se calhar conhecia mas ando cansada e meia embaralhada das ideias e não estou a ver quem és. Peço desculpa.

Amaral disse...

Só quem conhece a vida duma aldeia pode "sentir", mais e melhor, tudo aquilo que é o teu relato. É uma recordação dos dias, iguais a tantos dias, quer mais a norte, quer menos nas aldeias alentejanas (o meu caso…), onde se vivia o dia-a-dia de um modo pleno, diferente, apegado à terra, desconhecida destas coisas modernas que agora preenchem a vida do quotidiano. Gostei muito de ler, de lembrar, porque "revi" instantes que conheço da realidade...

Duarte disse...

Gostei. Pareceu-me um revisitar de um passado autobiográfico. Gosto da forma como descreves pequenas coisas, os detalhes das sensações.
Uma infância campestre, é o que sugere o texto.
Bonito
Beijinhos

jorgesteves disse...

Há por aqui qualquer coisa que me leva a recordar a obra do Júlio Dinis. Quase fico como o Henrique, chegado da capital, de olhos cheios dos cantos verdes do norte...
Guarde essas memórias!
jorgesteves
http://www.contextualidades.blogspot.com/

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Anónimo disse...
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