07/08/20

Cigarra

Ouço-as há anos. Mal o sol desponta, nos dias de Verão começando a aquecer o ar.
Primeiro uns sons mais baixos que vão aumentando até quase se tornarem ensurdecedores.
Não sei se alguma vez avistei alguma. Não, que me lembre. Sempre povoaram as minhas fantasias de criança. Um ser que tanto barulho fazia e que se não deixava ver. Como seria? Dela apenas sabia que vivia nos pinheiros e eucaliptos mais altos que ladeavam a casa de meus pais. Este barulho são as cigarras ( onde nasci chamam-lhes cega-rega) a abanar as asas para se refrescarem, dizia minha mãe. Hoje sei que afinal são apenas os machos que 'cantam' para atrair as fêmeas.
Ontem, pelo final da tarde, olhando distraída para o pé da mesa da cozinha descubro algo estranho pousado. Primeiro pensei tratar-se de uma vespa asiática, mas olhando melhor verifiquei que não.
Coloco, com mil cuidados, o pequeno animal num papel de cozinha e assim, mais perto dos olhos reconheço-o. Uma cigarra! (já tinha visto em foto por isso a reconheci).
Claro que logo corri para o meu 'sabonete' e registei o momento, antes de a levar cuidadosamente para o terraço, onde, mal sentiu o sol e o calor, voou alcançando o céu, escapando ao meu olhar.

28/04/20

O Amor faz milagres

Não acredito que alguma vez uma folha tenha sido tratada com tanto desvelo, carinho e amor.

Estava na moda o condomínio fechado. As pessoas, adultos e crianças foram gradualmente perdendo a liberdade da rua confinadas a muros e portões fechados, pelo medo de serem assaltados, ou simplesmente pela vontade de estarem isolados dos demais. Havia até quem se sentisse muito superior por morar num sítio desses.

Era uma superfície não muito grande, mas bem cuidada. Muitos prédios com muitos andares, que se fechavam em círculo, para uma praceta cujo chão, o que sobrava da entrada de garagens, era gramado, sempre bem aparado, mas com poucas flores. Estas podiam ver-se, mas em vasos, nas varandas dos prédios.

Todos os dias da semana ela atravessava este espaço, para ir tomar café, a um pequeno bar que havia nesse empreendimento.

Gostava de aproveitar aquele intervalo para apreciar as flores a espreitarem emprestando tanta variedade e colorido às varandas.

Num desses dias, um pouco desviada do sítio por onde os seus passos seguiam viu algo no chão, que lhe despertou a atenção. Aproximou-se e verificou ser uma folha pequena, completamente esmagada. Talvez por pés menos cuidadosos, pensou.

Baixou-se para ver melhor, mas não reconheceu a folha. Então com imensa delicadeza para tentar apanhar o que sobrava da pequena e esmagada folha recolheu-a na mão e levou-a consigo.

Parece a folha de um cacto, pensava enquanto olhava para ela. Será que dá flor? Será que vai ressuscitar? Todas estas perguntas lhe acorriam enquanto se dirigia à mercearia local para comprar o que necessitava.

Comprou um pequeno vaso, um saco de terra especial para cactos. Levou-os para o seu gabinete de trabalho e ali colocou a folha. Regou um bocadinho para aconchegar à terra e ali ficou. No trabalho, onde passava o dia, tinha muito mais oportunidade de a vigiar do que em casa, onde ia praticamente só passar a noite e pouco mais.
Logo que chegava ao gabinete ia verificar a folhinha e falava com ela amorosamente.
- Folhinha gosto muito de ti. Não sei o que irás dar, mas gostava muito que conseguisses resistir. És fêmea por isso resistente. Nós somos capazes de resistir a ventos e marés, a coisas que até nos parece impossível, mas sobrevivemos. Por isso, vá lá. Resiste!

O tempo passou e um dia notou que a folhinha estava viçosa e com um ser minúsculo que despontava de si. Que alegria quando verificou que era uma folhinha nova que aí vinha. Tinha ressurgido das cinzas, ou melhor, da pisadela.

Esta folhinha teve outra e outra e ainda outra. Talvez tenha passado um ano. Começou a formar-se na ponta da folha, um pontinho vermelho. Será que aí vem uma flor? Qual será? Que cor terá? Já não aguentava a curiosidade, mas todos os dias notava aquele pontinho a tornar-se maior, maior e maior até que uma manhã, quando abriu a persiana, lá estava com todo o esplendor possível uma flor como se fosse uma linda estrela vermelha! Maravilha, todo o cuidado e tempo de espera tinham valido a pena.

Tornou-se uma linda e viçosa planta enchendo o vaso de ramos e flores que fazem as delícias de quem a olha.

O amor compensa e faz milagres!

25/04/20

25 de Abril

Não deixemos fechar as portas que Abril abriu.
Sejamos vigilantes!
Pela Liberdade, Sempre!

23/04/20

No Dia Mundial do Livro

Sejam as nossas vidas canetas
escrevendo páginas
abertas ao vento e à imaginação
capazes de rasgar e transformar o Mundo!

20/04/20

Acordares


Pouco passava das cinco e meia da manhã quando os olhos se lhe abriram de repente sem saber o que a tinha acordado.
Já bem desperta, à procura de saber o porquê daquele despertar repentino, acudiu-lhe uma vontade de escrever, o que lhe era natural àquela hora matinal.
Abriu o livrinho de cabeceira, seu companheiro de viagens e aventuras e começou a escrever. Escreveu, escreveu, escreveu, num completo frenesim preenchendo todas as folhas em branco. Sentiu-se satisfeita. Quando o dia chegasse iria passar tudo para o computador.
Deitou-se de novo fechou os olhos e adormeceu para sempre.

08/04/20

Gavetas da memória

Há muito que a sua figura se tinha apagado numa das gavetas da memória. Naquele dia, sem nada que o fizesse prever, deu de chofre com ele, à entrada do supermercado, saco de compras na mão.
Estacou de repente. O coração deu-lhe um salto dentro do peito. Seria mesmo ele?
Tinha as marcas do tempo, como ela, mas conservava ainda aquele ar enigmático que fora sempre o que mais a cativara.
Ficou expectante. Falo, não falo?
Procurou algo no seu rosto que indiciasse que a reconhecera também. Mas nada viu. Naquele momento que durou uma vida, abriu-se a gaveta do tempo soltou-se a memória e viajou, como se tivesse sido ontem que tudo acontecera.
Eram adultos jovens, colegas da mesma escola mas de turmas diferentes. Nunca lhe soube o nome, nunca lhe soube a idade, nunca lhe conheceu a morada, não porque não pudesse, mas porque nunca tinha querido, para que permanecesse aquele ar enigmático à sua volta, de que tanto gostava e a deixava cativa.
O autocarro que os levava a casa era o mesmo. Gostava de se sentar perto onde ficava a apreciar o seu perfil e desenhos. Sim eram os desenhos o que mais lhe despertava o interesse e espicaçava a imaginação.
Mal se sentava logo abria uma pasta com folhas A4 e preenchia o branco com riscos e mais riscos pretos criando figuras que eram mais da mitologia do que da realidade e a fascinavam.
Cumprimentavam-se com um sorriso e um aceno de cabeça. Ela nunca soube se ele gostava de ter uma admiradora silenciosa. Talvez sim, pelo sorriso com que a cumprimentava, como se aqueles momentos também lhe fossem gratos.
Resolveu não dizer nada. Afinal ela era apenas uma admiradora silenciosa da sua arte e já tinham passado vidas.

05/04/20

Tempo de sombras

São de sombras e retiro os dias que vivemos.
talvez a Humanidade aprenda,
o quão insignificante é, no Universo Infinito,
em que um minúsculo ser, tão minúsculo que lhe escapa ao olhar
a faz estarrecer, fugir, aprisionar em prisão voluntária
com medo de morrer.
Talvez aprenda a dar mais valor à Vida
Talvez aprenda a olhar e ver ao seu redor
a maravilha das dádivas que lhe são diariamente oferecidas
Talvez aprenda que o maior inimigo da Humanidade é o próprio Homem, com a sua fúria cega, com a sua ânsia irracional de poder,
Talvez aprenda que afinal
A morte é algo que a qualquer momento pode acontecer,
talvez aprenda que tudo deixa, e a vida gira, os dias sucedem-se às noites, num sem-fim, indiferente à sua ausência.
Talvez abra os olhos e veja no outro, seu igual, sem distinção, com a mesma necessidade e as mesmas privações, clamando pela liberdade, igualdade e fraternidade,
mas que sejam factos e não slogans, palavras vãs.
Será que aprende?
Será que muda a sua forma de ser e estar?
Será?