30/06/07

do teu jardim


Do teu jardim, a primeira
Disseste sorrindo para mim
êxtase, paixão,
nobreza, amor,
ternura
Uma cascata senti
de tanta beleza assim...

20/06/07

14/06/07

expressões...


Dormi serena ao saber que em mim habitas... Sê também a minha morada!
foto do Google

10/06/07

sorriso


Deixo o meu sorriso abrigado num raio deste sol que desponta
acordando os passarinhos que cantam
como se também eles
se quisessem unir numa ode à nossa amizade...
foto de mão amiga

02/06/07

A árvore


Perdia-se na história dos tempos a idade da árvore, mas ali continuava assistindo ao aparecimento da carqueja e do tojo, olhando da sua altura, as flores de um amarelo intenso, misturadas com o rosa velho da urze. Aspirava deleitada aquele doce aroma que se espalhava ao redor saturando o ar de abelhas que zuniam recolhendo aqueles néctares.
Estava velha pensava, carcomido o seu interior, mas dando abrigo a um belo lagarto que outrora já fora verde mesclado de pequenos pontinhos amarelos e azuis, como se todo o corpo fosse coberto de esmeraldas e outras pedras preciosas.
Tinha assistido a muitas Primaveras, Verões e Outonos. Os Invernos passava-os bem aconchegado no fundo da sua toca, usufruindo do aconchego do tronco carcomido, onde tinha feito a sua casa.
Hoje o tom das pedras preciosas do seu corpo, tinha dado lugar a outro meio acastanhado.
Talvez por viver tantos anos na árvore, se tenha adaptado mais à cor desta, pensava a menina.
A contrastar com a idosa árvore e seu habitante, a menina era de tenra idade.
Um dia, passara descuidada saltitante pela mão da mãe, junto à árvore, e deu-se conta tanto da beleza e raridade visual desta, como do seu habitante. Ficou curiosa e voltou, agora sozinha, ao local.
Apesar da sua pouca idade, vivia num tempo em que as crianças não eram cobiçadas, roubadas nem agredidas por alguém exterior à família. (As agressões nesses anos vinham do próprio seio familiar). Podia, por isso, vir sempre que quisesse visitar a árvore e o seu habitante, de quem se foi tornando muito amiga.
Vinha nas manhãs de sol e ali se deixava ficar olhando o seu amigo lagarto, a velha árvore, o manto de flores multicolores com que o pinhal se vestia todas as primaveras, as videiras a rebentarem em viçosas folhas verdes clarinhas que se iam tornando mais escuras, até aparecerem aquelas sementinhas, muitas, muitas (a menina na altura achava que eram sementinhas) e que sabia se iriam transformar em belos e saborosos bagos de uva, que ela tanto gostava de provar.
A menina sabia, pois que acompanhava toda esta transformação, enquanto observava o seu amigo lagarto ao sol e iam falando os dois.
O lagarto contou-lhe dos outros meninos e meninas que por ali passavam e que lhe queriam fazer mal. Dos adultos que queriam cortar a sua árvore. De outras Primaveras em que o Sol tinha sido menos pródigo, recusando-se a brilhar, o que para ele era sempre motivo de não sair. Dos grandes estios que secavam as flores como se de um forno se tratasse. Da construção do lavadouro da aldeia, perto da sua toca, o que lhe valeu grandes sustos. A distinguir a flor do tojo, da carqueja e da urze. A saber que os medronhos não se podem comer em grande quantidade porque embebedam. Que o rio se transforma num pequeno regato no Verão. Que aquele castanheiro vizinho, iria dar uns frutos maravilhosos que se chamavam castanhas. Que quando os frutos estivessem bons para comer, cairiam do ouriço e nessa altura se aproximava o tempo da separação entre eles. Tanta coisa que a menina observava ouvindo deliciada, sempre.
E, assim nasceu e se desenvolveu uma grande amizade, entre a menina e o lagarto que tanto sabia, devido a já ter assistido à passagem de muitas estações do ano.
Quando chegava o Inverno era o tempo da espera e da saudade.
As estações foram-se sucedendo, até que chegou a altura da menina ir para a escola.
Lá foi feliz, podendo assim mitigar um pouco aquela saudade, e impressão de que o Inverno não acabava nunca.
Gostava muito da escola e de aprender coisas novas. Do mundo que se abria aos seus olhos.
O tempo corria mais depressa.
Chegada a Primavera, com o Sol a raiar, os passarinhos a cantar, as árvores a rebentarem, quando toda a natureza despertava, saindo daquela longa letargia, lá corria a menina para visitar o seu amigo e contar-lhe novidades da escola, dos amigos novos que tinha entretanto feito, das suas interrogações, dos seus anseios, das suas dúvidas, das suas angústias, e ali ficavam os dois esquecidos do tempo que à sua volta existia. Tempo que para eles era outro, de uma outra dimensão.
E assim se foram passando mais e mais estações, mais e mais invernos. A menina tornou-se mulher, trilhou caminhos diferentes, mas nunca se esqueceu do amigo, ali voltando todos os verões e tendo sempre a alegria do reencontro.
Até que um dia...
Os homens cortaram a árvore e a menina, agora mulher, chorou.
Então ouviu uma vozinha que ela conhecia muito bem e que lhe perguntou:
─ Porque choras, amiga?
Ela levantou a cabeça e apressou-se logo a secar as lágrimas ao ver o seu amigo são e salvo. Um sorriso iluminou todo o seu rosto.
Uma imensa alegria do tamanho do mar que liga oceanos brotou do seu peito. Abraçou o amigo e assim ficaram saboreando o prazer das amizades verdadeiras...
foto: gentilmente composta por mão amiga
Nota: Este conto participa na 6.ª edição do Canto de Contos.
Os participantes podem ser encontrados no blog da Beatriz