10/12/17

Frenesim


A chuva, mais do que esperada era um desejo instalado na maioria das pessoas, de tal modo que até faziam rezas e empenhavam a palavra de padres, bispos, arcebispos e, desconfio que até do papa, todos reunidos em oração pedindo aos céus que mandassem bastante chuva para lavar as marcas dos desatinos do Verão, queimadas que se transformaram em verdadeiros fornos crematórios. No entanto o céu não deixou cair mais do que meia dúzia de gotas, envergonhadas.
Mas eis Dezembro chegado, e com ele o Natal.
Depressa foram esquecidas as rezas, os incêndios, a falta de chuva.
Acudindo de forma vertiginosa ao chamamento do deus consumo, o povo corre apressado, enchendo carros e mais carros, é comprar antes que esgote, as prendas, o bacalhau, as promoções que destas apenas tem o nome, sem olhar a preço nem a gastos… e depois logo se há-de ver. Seja o que Deus quiser.
Só que a Natureza também tem os seus caprichos. Como se esperasse que todos se esquecessem e apanhando-os distraídos, de um momento para o outro o céu fechou-se, o vento de brisa leve e fresca passou rapidamente a rajadas fortes. Alertas amarelos, vermelhos, mensagens para as embarcações, fecho de pontes, portos, a TV nos seus canais sensacionalistas, a debitarem avisos de arrepiar e todos, a recolherem ao aconchego e abrigo de suas casas, os que as tinham… estava instaurado o pânico.
A chuva, como quem a despeja a potes, começou a cair de forma tão intensa formando cortinas de bátegas que não deixavam ver nada, dia e noite, noite e dia, de tal forma que agora as rezas eram para que aquela massa de água inclemente cessasse.
Mas não parou. Encheu rios e fontes, barragens e represas, rebentou diques mais fracos, entupiu sargetas que tinham ficado esquecidas, inundou estradas, caminhos de ferro e veredas, encheu as casas, arrastando à sua frente tudo o que encontrava. Durante sete dias e sete noites o céu despejou.
Passado este período, o sol acordou radioso e belo, quente e sorridente banhando tudo com os seus raios de luz.
As pessoas começaram a sair e cada uma, da forma que podia, verificou quem ainda estava vivo.

escrito para  tertúlia do Et Quoi- escrita criativa, sob o tema: para ver quem ainda está vivo.

3 comentários:

Graça Pires disse...

Um texto muito criativo, Teresa. E tens razão: a tendência para o exagero manifesta-se em tudo. No consumismo, nas notícias, no frenesim em que andam todos. E nem a Natureza faltou com o seu exagero...
Uma boa semana.
Um beijo.

Manuel Veiga disse...

gostei muito do texto,
um belo exercício de escrita

abraço

Agnieszka Krawczyk disse...

Amazing photo. Quite mysterious, really amazing. <3