22/08/15

O Comboio



Os seus olhos, outrora dois faróis mais brilhantes do que o sol, em dias de Verão, estavam cansados e mais tempo fechados que abertos.
Tinha sido uma bela máquina e orgulhava-se do seu brilho e força, podendo puxar várias carruagens carregadas com gente ou mercadorias, por esse mundo fora, dentro sempre dos trilhos que lhe eram destinados, mas vendo o mundo girar umas vezes à superfície do chão, outras, à altura do céu, em pontes e aquedutos que lhe mostravam o mundo numa perspectiva diferente.
Agora, ao fim de tantos anos de idas e vindas, ali estava, juntamente com outras suas iguais, ao serviço de uma comunidade, quase toda em ponto pequeno e que chegavam, quais bandos de pardais, deliciando-se com as histórias que podiam ouvir da guia e ainda apreciar a cobertura reluzente e bem cuidada do seu corpo.
Não se sentia inútil, ainda que se tivessem acabado as viagens. Chegara o tempo de descansar, fazer ou ver coisas novas, diferentes das que até aí conhecia.
Agora, peça de museu, apreciava os olhares admirados e maravilhados das crianças e adultos que lhe afagavam a pele curtida pelo tempo enquanto se iam inteirando das aventuras da sua já longa vida.


Foto da Net

Pequena história escrita para a Tertúlia do Grupo ET Quoi, cujo tema era "o Comboio".

5 comentários:

Eduardo Aleixo disse...

Carruagem que pensa com tristeza e muita ternura e nos ensina a alma grata que tem ao ver o olhar das crianças ouvindo a sua história.
Belo..

Graça Pires disse...

As crianças, encantadas com o comboio, de certeza que fizeram maravilhosas viagens imaginárias inspiradas na carruagem reluzente onde pressentiam todas as aventuras.
Um texto muito belo, amiga.
Um beijo.

© Piedade Araújo Sol disse...

Um texto simples e muito belo, pois na simplicidade é que reside a beleza...
beijinho amigo
:)

ॐ Shirley ॐ disse...

Achei bela essa "pequena história...".
TB, abraços!

Parapeito disse...

tao doce esta tua história.
Gostei muito...e o comboio tambem gostou :)
Abraço minha ne*