27/01/13

Conflito



A sua cabeça era um reboliço.
O Natal aproximava-se a passos largos e ainda não tinha comprado as prendas.
- Não me posso esquecer de ninguém - pensava a toda a hora.
Queria concentrar-se nas tarefas diárias e não conseguia, com aquele mundo de pessoas a formarem lista na sua cabeça.
_ Não me posso esquecer de ninguém, repetia pegando numa caneta, desdobrando uma folha de papel onde se podia ver uma espécie de lista, à qual acrescentava mais um nome.
A lista ia crescendo num rol interminável.
O que hei-de comprar? Onde comprar? Está tudo tão caro! Este conflito interno criado entre o preço das coisas e a lista interminável roía-lhe as entranhas.
Todos os anos, se repetia esta preocupação como se de um ritual se tratasse.
Procurou a sua amiga e confidente para tentar receber algum conforto. Mas ela deu–lhe nas orelhas porque era contra este ritual das prendas. Marca de um consumismo imposto pelos grandes interesses económicos.
Mas eu não quero que digam mal de mim – pensava ela com os seus botões. O que iria dizer toda a gente se ela aparecesse sem prendas?
Marcou o dia de folga para se dedicar às compras. O Natal sem prendas não era Natal. Ainda que fosse apenas algo sem valor nem utilidade, o que era importante era dar uma prenda, cumprindo a tradição.
No dia de folga lá  foi toda excitada entregando-se de corpo e alma ao consumismo...
À saída, com um carro enorme cheio de pequenos embrulhos, tropeçou em mais mil como ela, cheios de pressa e nervoso para cumprirem o ritual...
Mudou rapidamente as compras do carrinho para o porta-bagagens do seu carro, arrancando do estacionamento de supetão, obcecada com o dinheiro que tinha gasto, completamente passada com toda aquela gente que a tinha obrigado a filas e filas.
Tão embrenhada ia, que não viu o sinal vermelho.
De repente, sem saber de onde vinha, ouviu um estrondo, viu um clarão e o mundo apagou –se.
Pequenos e coloridos embrulhos ficaram espalhados pelo chão...



Imagem da Net

3 comentários:

AC disse...

O mundo pode apagar-se a qualquer momento, mas teimamos em olhar a vida à imagem da visão dos outros. Corremos tanto, para quê?
Bem captado, tb!

Mar Arável disse...


Nunca aceitei que os sinais vermelhos
fossem para parar

Bjs

Eduardo Aleixo disse...

O conto é rico de ensinamentos e lembranças. Lembra-nos o mal-estar de quem vive ao sabor do que os outros pensarão de si. E ensina-nos a viver de acordo com os ditames do nosso ser mais íntimo, que é indiferente ao que os outros possam pensar. Gostei. Muito. E deixo.te um beijo com sinal verde.