13/04/22
16/02/22
Desencontros dos dias
Porque será comigo recorrente
sem porquê nem piedade
os dias de calendário sobreporem-se
como se todos os outros
acabassem sem amanhã?!
02/02/22
Desconstrução da planura
24/01/22
Hansel e Gretel o verdadeiro conto
Quando, na entrada do Verão, cheguei àquela aldeia piscatória da qual tinha ouvido falar através de amigos, fiquei maravilhada com o que os meus olhos viam. As casinhas de madeira alinhadas ao lado umas das outras, cada uma pintada em riscas de cores garridas, aos pedacinhos como se de um puzzle se tratasse, encantavam qualquer olhar mais sensível. Ao longo de um molhe que protegia as casinhas do enorme areal, repousavam barcos, cada um com sua cor e nome, alguns bem pitorescos.
O nosso olhar poderia alongar-se até à linha do horizonte
perdendo-se em pensamentos e sonhos.
Dispus-me a passear lenta e demoradamente em
reconhecimento por um sítio que tanto me encantou, logo ao primeiro olhar.
Embrenhei-me pelas ruelas muito bem limpas cumprimentando
as pessoas que por mim passavam. Entrei numa pequena mercearia, daquelas em que
se vende um pouco de tudo tentando pedir informação de onde dormir. As pessoas
mais simples são, por norma, muito solidárias e todos me quiseram ajudar.
Aconselharam-me a casa de um casal de pescadores, que
tinha duas belas crianças, um menino e uma menina, parecidos entre si, com
cabelos pretos como azeviche, tez morena tostada do sol e sal do mar, uns olhos
verdes, rasgados e brilhantes como quem queria, a todo o momento abarcar o
mundo.
A sobrevivência deste casal de pescadores dependia apenas
da pesca e de tudo o que o mar dava. Mas, como nos últimos tempos, o mar estava
parco em generosidade, resolveram arrendar o quartinho, para poderem fazer face
às despesas e alimentar as crianças.
A casinha apesar de humilde era muito limpa e tinha as
coisas necessárias para uma confortável estadia. Um quarto não muito grande,
mas banhado pela luz e claridade do sol que entrava a jorros pela janela e de onde
se podia ouvir o som do mar, que embalava e convidava ao sono tranquilo e
repousante, apenas a uma sesta breve ou, tão só, ficar ali a olhar. Era o
suficiente para mim.
As crianças depressa fizeram amizade comigo e queriam que
as acompanhasse nas suas brincadeiras. Lá íamos, cabelo ao vento, dando o rosto
ao sol, passear naquele imenso areal construindo castelos de areia e sonhos,
risos e gargalhadas, a que se juntavam os sons das gaivotas que vinham nos seus
voos rasantes como quem se junta à brincadeira.
Ao descobrirem que sabia cozinhar bem caracóis e que era
um petisco que apreciava, as crianças tiveram a ideia de propor aos pais que
juntassem os amigos e alguns conhecidos, pois que ali ainda viviam numa espécie
de comunidade, onde cada um por todos e todos por cada um, se ajudavam e participavam
das alegrias e tristezas e as viviam juntos, apanhassem caracóis, que naquela
altura já estavam agarrados às palhas secas, e os preparasse para toda a
comunidade, num momento de grande satisfação para todos. Assim fizeram e foi
muito agradável ver a alegria geral e a deferência com que me brindaram em
olhares e elogios. Um momento que não vou esquecer, nunca.
A partir desta altura ainda mais nos unimos, eu e as
crianças, e fazíamos caminhadas por terra, onde, na curiosidade própria de
jovens, queriam aprender o nome e a importância das plantas e da proteção das
dunas, de respeitar a natureza, sentindo-nos parte integrante dela.
As caminhadas à beira do mar também eram agradáveis e
imaginativas.
Uma tarde em que a água escaldava e por isso não dava
para se meterem nela, ficaram sentados, pés na areia, onde cavaram um pequeno
buraco, para refrescar e deram asas à imaginação.
Construíram e visitaram um mundo dos mais belos e
coloridos corais, onde vivia um monstro marinho, que ao contrário de todos os
monstros marinhos conhecidos, era generoso e sempre pronto a ajudar os outros
seres que com ele coabitavam, como por exemplo, as anémonas e que tinha para
essa tarefa tão nobre, o Nemo, seu ajudante, peixe de grande colorido que se
dedicava a limpar delicadamente cada pedacinho de chão, haste, ou alga, ou
mesmo pessoa que estivesse em apuros.
Tinham um pote cheio de tesouros, pedrinhas pretas e
dentinhos de peixe, recordações dos filhotes que por lá tinham passado, usando
para isso, um velho carro que tinha caído junto ao recife e que agora era um
mundo de vida e cor.
Assim, estas crianças nunca se perdiam. Conheciam bem
todos os recantos sabendo de olhos fechados, o caminho para casa, aconchego dos
braços amigos de seus pais, que os esperavam ao final do dia, com um enorme sorriso.
Elas apenas se deixavam perder pelas ruas da imaginação, por onde eu, durante
uns maravilhosos dias, me deixei perder também, com elas.
Nota: trabalho de Escrita Criativa baseado no conto de Hansel e Gretel, mas modificado com alguns parâmetros obrigatórios
17/01/22
19/12/21
Boas Festas!
14/09/21
18/11/20
07/08/20
Cigarra
28/04/20
O Amor faz milagres
Estava na moda o condomínio fechado. As pessoas, adultos e crianças foram gradualmente perdendo a liberdade da rua confinadas a muros e portões fechados, pelo medo de serem assaltados, ou simplesmente pela vontade de estarem isolados dos demais. Havia até quem se sentisse muito superior por morar num sítio desses.
Era uma superfície não muito grande, mas bem cuidada. Muitos prédios com muitos andares, que se fechavam em círculo, para uma praceta cujo chão, o que sobrava da entrada de garagens, era gramado, sempre bem aparado, mas com poucas flores. Estas podiam ver-se, mas em vasos, nas varandas dos prédios.
Todos os dias da semana ela atravessava este espaço, para ir tomar café, a um pequeno bar que havia nesse empreendimento.
Gostava de aproveitar aquele intervalo para apreciar as flores a espreitarem emprestando tanta variedade e colorido às varandas.
Num desses dias, um pouco desviada do sítio por onde os seus passos seguiam viu algo no chão, que lhe despertou a atenção. Aproximou-se e verificou ser uma folha pequena, completamente esmagada. Talvez por pés menos cuidadosos, pensou.
Baixou-se para ver melhor, mas não reconheceu a folha. Então com imensa delicadeza para tentar apanhar o que sobrava da pequena e esmagada folha recolheu-a na mão e levou-a consigo.
Parece a folha de um cacto, pensava enquanto olhava para ela. Será que dá flor? Será que vai ressuscitar? Todas estas perguntas lhe acorriam enquanto se dirigia à mercearia local para comprar o que necessitava.
Comprou um pequeno vaso, um saco de terra especial para cactos. Levou-os para o seu gabinete de trabalho e ali colocou a folha. Regou um bocadinho para aconchegar à terra e ali ficou. No trabalho, onde passava o dia, tinha muito mais oportunidade de a vigiar do que em casa, onde ia praticamente só passar a noite e pouco mais.
Logo que chegava ao gabinete ia verificar a folhinha e falava com ela amorosamente.
- Folhinha gosto muito de ti. Não sei o que irás dar, mas gostava muito que conseguisses resistir. És fêmea por isso resistente. Nós somos capazes de resistir a ventos e marés, a coisas que até nos parece impossível, mas sobrevivemos. Por isso, vá lá. Resiste!
O tempo passou e um dia notou que a folhinha estava viçosa e com um ser minúsculo que despontava de si. Que alegria quando verificou que era uma folhinha nova que aí vinha. Tinha ressurgido das cinzas, ou melhor, da pisadela.
Esta folhinha teve outra e outra e ainda outra. Talvez tenha passado um ano. Começou a formar-se na ponta da folha, um pontinho vermelho. Será que aí vem uma flor? Qual será? Que cor terá? Já não aguentava a curiosidade, mas todos os dias notava aquele pontinho a tornar-se maior, maior e maior até que uma manhã, quando abriu a persiana, lá estava com todo o esplendor possível uma flor como se fosse uma linda estrela vermelha! Maravilha, todo o cuidado e tempo de espera tinham valido a pena.
Tornou-se uma linda e viçosa planta enchendo o vaso de ramos e flores que fazem as delícias de quem a olha.
O amor compensa e faz milagres!
25/04/20
23/04/20
No Dia Mundial do Livro
escrevendo páginas
abertas ao vento e à imaginação
capazes de rasgar e transformar o Mundo!
20/04/20
Acordares
08/04/20
Gavetas da memória
Estacou de repente. O coração deu-lhe um salto dentro do peito. Seria mesmo ele?
Tinha as marcas do tempo, como ela, mas conservava ainda aquele ar enigmático que fora sempre o que mais a cativara.
Ficou expectante. Falo, não falo?
Procurou algo no seu rosto que indiciasse que a reconhecera também. Mas nada viu. Naquele momento que durou uma vida, abriu-se a gaveta do tempo soltou-se a memória e viajou, como se tivesse sido ontem que tudo acontecera.
Eram adultos jovens, colegas da mesma escola mas de turmas diferentes. Nunca lhe soube o nome, nunca lhe soube a idade, nunca lhe conheceu a morada, não porque não pudesse, mas porque nunca tinha querido, para que permanecesse aquele ar enigmático à sua volta, de que tanto gostava e a deixava cativa.
O autocarro que os levava a casa era o mesmo. Gostava de se sentar perto onde ficava a apreciar o seu perfil e desenhos. Sim eram os desenhos o que mais lhe despertava o interesse e espicaçava a imaginação.
Mal se sentava logo abria uma pasta com folhas A4 e preenchia o branco com riscos e mais riscos pretos criando figuras que eram mais da mitologia do que da realidade e a fascinavam.
Cumprimentavam-se com um sorriso e um aceno de cabeça. Ela nunca soube se ele gostava de ter uma admiradora silenciosa. Talvez sim, pelo sorriso com que a cumprimentava, como se aqueles momentos também lhe fossem gratos.
Resolveu não dizer nada. Afinal ela era apenas uma admiradora silenciosa da sua arte e já tinham passado vidas.
05/04/20
Tempo de sombras
talvez a Humanidade aprenda,
o quão insignificante é, no Universo Infinito,
em que um minúsculo ser, tão minúsculo que lhe escapa ao olhar
a faz estarrecer, fugir, aprisionar em prisão voluntária
com medo de morrer.
Talvez aprenda a dar mais valor à Vida
Talvez aprenda a olhar e ver ao seu redor
a maravilha das dádivas que lhe são diariamente oferecidas
Talvez aprenda que o maior inimigo da Humanidade é o próprio Homem, com a sua fúria cega, com a sua ânsia irracional de poder,
Talvez aprenda que afinal
A morte é algo que a qualquer momento pode acontecer,
talvez aprenda que tudo deixa, e a vida gira, os dias sucedem-se às noites, num sem-fim, indiferente à sua ausência.
Talvez abra os olhos e veja no outro, seu igual, sem distinção, com a mesma necessidade e as mesmas privações, clamando pela liberdade, igualdade e fraternidade,
mas que sejam factos e não slogans, palavras vãs.
Será que aprende?
Será que muda a sua forma de ser e estar?
Será?
14/02/20
Dia dos namorados
Que os corações não fossem de pedra, mas sim de matéria viva, luz, paixão e o mundo passaria a ser um lugar muito mais respirável!
31/12/19
Bom 2020
Votos de um Ano pleno de sucessos!
01/09/19
Sinfonia para Setembro
como quem traz a frescura da manhã
o cantar dos pássaros
a quietude da brisa
a paz da água escorrendo
de pedra em pedra
escrevendo melodias de encantar
no lençol do espelho do céu,
mês do Natal meu!...
30/05/19
Esperança
que se estende como teia de aranha sobre as moscas
que me faz entristecer
mas escolho o belo, o simples, o que cresce à minha volta
e me faz rejuvenescer
a esperança
a certeza
que existe um outro mundo
em que ainda vale a pena viver!
25/03/19
Primavera
em cada ínfima coisa, se faz anunciar
em profusão de cor,
onde também o silêncio se faz notar...











