18/02/11

esvoaçando 1


Bom amigo,

Entendo da tua necessidade de saber se me sinto bem. Entendo-a por mim.
Sabes que felizmente os dias não são iguais e sou pessoa de pegar numa
vassoura e vassourar nuvens negras...
Nem sempre, no entanto, temos a força necessária, para tantas agressões exteriores a nós, a que somos diariamente, sujeitos...
Mas sim, hoje o dia acordou risonho, fui à praça da rua comprar fruta, legumes e outras coisas necessárias à alimentação da família, ajudei e fui ajudada e por isso só tenho de dar graças pelo que me é dado. Além disso tenho as tuas palavras sempre amigas e ternas que ajudam a encher os dias de um pouco mais de sol...
Envio-te algo hoje, que sei e entendo pertencer à chamada cultura mas que para mim (isto é um segredo que te revelo) não tem qualquer valor. É austero e sempre que olho para esta concentração de riqueza, vejo a fome e sofrimento de tantos povos para que isto se materializasse e materialize em nome de um Deus que sendo amor, querem transformar em fausto e glória de bens terrenos.
Afinal nascemos, vivemos, morremos e tudo fica,  até que o tempo o apague na sua borracha impiedosa, dizem uns, eu direi apenas inteligente...
Sei que sou esquisita e estranha. Tenho vivido com este estigma desde tenra idade de tal modo que já me é pele,  por isso te digo este segredo por saber que me entendes e me aceitas com toda a minha estranheza,  tal qual sou.
E assim, porque hoje é sexta e amanhã dizemos adeus à rotina que tanto nos "aperreia" o viver,  te envio beijos na ponta dos dedos soprados com um sorriso
para que o dia te seja um pouco mais...

Com amizade, até outro momento

TB


foto de uma catedral de Milão

06/02/11

Egos


Por cima dos canteiros onde os pais cultivavam os mimos para a sua subsistência havia  sempre uns seres que a menina achava imensamente engraçados, por tão ridículos.
Não eram assim de pele como ela e as outras crianças, mas sim feitos de palha, os braços e as pernas eram de pau e sempre com um chapéu, também feito de palha, na cabeça. Pensava a menina que fosse para se protegerem do sol e da chuva pois que permaneciam imóveis dias e dias...
Ela costumava ficar por ali admirando aqueles seres bizarros. Os pássaros vinham em bandos namorar as “novidades” verdinhas e viçosas e poisavam em cima destas figuras tornando-as ainda mais estranhas.
Um dia a menina perguntou à mãe:
- Mãe, para que servem estes seres, por ali sempre imóveis nos canteiros?
A mãe sorrindo respondeu:
- São para afugentar os pássaros.
- Então porque pousam os pássaros neles? Parecem ter pouco medo- respondeu a menina.
- Sabes, os pássaros são sábios.
Eles sabem que são apenas figuras de palha. Pela vida fora irás encontrar muitas figuras assim...


foto da net

23/01/11

A Pastora de Palavras


Tinha nascido menina bela, com uns olhos onde cabiam todos os mares, a cabeça adornada de belos cachos loiros como uvas maduras beijadas pelo sol do Verão, um sorriso mais brilhante que o mais belo luar de Janeiro e uma doçura que encantava o bosque onde nasceu.
Tão bela criatura tinha de ser abençoada.
No bosque viviam as fadas, seres encantados que apenas as crianças viam e ouviam, e que tinham poderes especiais que davam aos meninos que se portavam melhor , obedientes aos pais e amigos de todas as criaturas do Bosque.
A bela menina, andando por ali distraída vendo as flores e as borboletas que com todas aquelas cores, quase se confundiam com elas, ouviu uma vozinha falando baixo e suavemente que lhe disse:
- Linda menina, eu sou a tua fada madrinha, vim porque tenho um poder especial para te dar. O que queres ser durante a tua vida?
A menina, apanhada de surpresa, ficou calada. Ela gostava muito de ver os animais do Bosque, as flores, as borboletas, as árvores, os tapetes de musgo verdinho no Inverno, e sobretudo os rebanhos de ovelhas e cabras que costumava apreciar pela orla do bosque como pontinhos multicolores destacando-se do resto da paisagem, enquanto o pastor encostado ao seu cajado, por ali ficava olhando a paisagem e o seu rebanho conversando com os cães pastores e lhes assobiava para juntar os animais. Então a menina disse à fada:
- Quero ser pastora!
A fada ouvindo aquele curioso pedido, disse-lhe:
- Assim será! No entanto serás Pastora não de animais mas sim de Palavras. Dito isto, tocou-lhe com uma varinha que tinha na mão, mais parecendo uma estrela de tão brilhante, e foi-se embora.
A menina ainda mal refeita da surpresa começou a apalpar-se para ver o que tinha mudado e não encontrou nada diferente.
Passou o tempo, a menina foi crescendo,saiu do bosque para outro local e foi para a escola. Estudou muito, sempre estudiosa e dedicada começando a sentir um gosto e carinho especial pelas palavras.
A paixão foi crescendo à medida que o tempo passava e a menina se ia tornando adolescente e mulher e de tal ordem a foi acompanhando que se tornou uma escritora ímpar.
Viajou, conheceu outros países com pessoas diferentes e modos de vida diferentes, sempre com o afã de saber mais e adquirir mais conhecimento enriquecendo assim a sua existência e essência.
Quando se sentava para escrever as palavras nasciam em cascata do seu pensamento e passavam pelos dedos como rios. Senhora conhecedora do visível e do invisível, do dizível e do indizível, dos mistérios de deuses e anjos, e da imensidão entre o céu e o mar, tudo sabia e tudo escrevia, como se dentro dela todas as fadas encantadas tivessem morada e todas as estrelas fossem sua morada.
E eu que tive o privilégio de a conhecer  e de me encantar com a sua escrita sublime, com a sua forma de ser humilde, com o seu sorriso meigo, doce e algo envergonhado, quase pedindo desculpa por existir, faço este pequeno registo, antes que chegue o dia em que a folha que sou caia e se dilua na finidade dos dias, para que a memória não se perca pelos tempos...


Dedico estas palavrinhas à Pastora de Palavras,autora das pérolas cuja capa trago aqui, e de outras iguais. 
Com toda a minha estima, amizade e gratidão.

16/01/11

A menina do rio


Era uma vez uma aldeia muito bonita espalhada por montes, por onde as casas se iam distribuindo como se fossem árvores.
Esta aldeia era quase em tudo semelhante a todas as outras.
No vale havia uma várzea verdejante, contente em ter por companheiro o rio que a serpenteava, de água tão límpida e transparente que mais parecia prata, quando o sol com os seus reflexos a beijava e onde as enguias e outros peixes corriam alegremente alimentando-se de coisinhas pequenas que iam apanhando ao longo da corrente.
Nas margens do rio havia salgueiros, amieiros, choupos, loureiros e outras árvores cujo nome a menina desconhecia.
Havia ainda silvas que a cada Primavera se cobriam de flores belíssimas, de um rosa desmaiado e que faziam as delícias das abelhas e besouros.
A menina sabia, porque por ali andava sempre namorando o rio e tudo o que acontecia à sua volta, curiosa e ladina, de tal forma que lhe chamavam a menina do rio, que aquelas flores agora tão pequenas e tímidas iriam transformar-se em belas e suculentas amoras pretas lá mais para o Verão, e que fariam as suas delícias e a dos outros meninos como ela.
O amor pelo rio tinha-lhe vindo desde tenra idade, tão pequenina era que mal se sustinha em pé ainda, mas já acompanhava a mãe que ia lavar a roupa. Às vezes ia no alguidar que a mãe transportava à cabeça e ficava sentada ao abrigo da copa de uma oliveira, enquanto a mãe lavava a roupa. Mais tarde, já ela ia também ajudar, nasceu-lhe um grande amor pelo rio e suas criaturas.
O amor da menina pelo rio foi crescendo à medida que as pessoas menos importância lhe davam.
Começaram a jogar para o seu ventre as coisas mais incríveis: lixo que se ia acumulando mais e mais e que a menina via e se sentia totalmente incapaz de fazer parar.
O rio começava a ficar doente e a menina entristecia a cada dia mais e mais.
Então, a Mãe Natureza que a tudo assiste, umas vezes calada outras gritando de forma a que se faça ouvir, vendo a tristeza do rio e da menina, chorou, chorou, chorou juntando as suas lágrimas às da menina e do rio.
As lágrimas, em forma de chuva começaram a encher o rio e o lixo que lá estava acumulado e que ocupava muito espaço, não deixava a água correr.
Foi enchendo, enchendo até não caber mais e transbordou alagando a bela várzea e levando consigo as verdejantes culturas e tudo o que se atravessava à frente.
As pessoas, vendo aquilo, levavam as mãos à cabeça amaldiçoando a sua sorte.
Mas a menina do rio, disse-lhes:
Vocês é que tiveram a culpa. Não respeitaram o rio nem as suas margens, encheram-no de lixo e ele chorou. É a forma que a Mãe Natureza tem de vos dizer que devem parar e inverter o caminho.
As pessoas em silêncio e algo envergonhadas por uma menina lhes dar uma lição escutaram as palavras e prometeram que iriam limpar o rio, mal a chuva parasse.
Como todos sabemos, a Mãe Natureza escuta as palavras que vêm dos nossos corações e por isso, parou de chorar. O sol apareceu sorridente secando a água que voltou ao normal e as pessoas todas juntas limparam o rio ficando este de novo belo, com a água transparente correndo livre e cantando de pedra em pedra.
O solo ficou fértil dando de novo lugar às mais belas e verdejantes culturas.
As crianças na escola aprenderam que se deve respeitar a Natureza porque todos fazemos parte dela.


Nota: Escrevi esta pequena história para oferecer aos "Ursinhos Carinhosos" que desenvolvem um trabalho em parceria com uma escola de Portugal,sobre um dos nossos rios.
Com um beijinho carinhoso.

A foto é da net.

15/01/11

linhas...

...de um sorriso de um simples fósforo se faz luz crepitante que espalha o seu calor aquecendo os corações ao seu redor...


foto: minha

10/01/11

Olhares

De pedra em pedra
enquanto o sol espreitava
namorando as folhas do amieiro
que alegre por ali crescia
olhando lá do alto,
estendendo os braços ao céu,
corria, indiferente ao rumor do vento,
dos humanos barulhentos,
às suas angústias ou anseios...


Foto: minha

30/12/10

Dias de estrelas!

Era uma vez um mundo encantado onde a luz renascia a cada passar de ano, nas mãos das crianças.

Estas, espalhavam-na ao seu redor fazendo nascer estrelas...

Que cada dia seja um dia de luz e estrelas, na vida de cada um...

A todos os que me acompanharam neste ano que se despede, e a todos os que passarem no que desponta

deixo o meu beijo agradecida.

Feliz Ano Novo!


A pintura é de Togedher

22/12/10

Boas Festas!

Neste rasgão de luz, que perpetuará os tempos dos tempos deixo mil bolas e em cada uma delas, um desejo meu e vosso...
Boas Festas com um beijo da

tb



foto: de Z. a quem agradeço

03/12/10

pescador de reflexos e sonhos


O sol quase desaparecia já no horizonte. O pescador saltitava de pedra em pedra, equilibrando-se em cada ravina, pico, ou onda para captar o melhor reflexo.
Por vezes ficava parado, olhando apenas. Esperando que a maré lhe trouxesse a tão desejada pescaria que há muito almejava.
Naquele dia, queria apanhar o sol a espreguiçar-se sobre o mar entregando-se nas ondas e nelas desaparecendo feliz.
Tão absorvido andava no seu intuito que nem se apercebeu de um serzinho minúsculo que o olhava e seguia atentamente todos os seus movimentos.
Nisto, uma onda, mais ciumenta dos reflexos do céu a espalharem-se reflectidos na água que beijava lentamente a areia e preguiçosamente se deixava escorregar,  lentamente como que a desafiar o olhar e atenção do pescador, de tal forma que se confundiam o chão com o céu e o obrigava a concentrar-se nelas, como se tudo à sua volta desaparecesse, levantou-se, revolta e splash! – molhou-o todo.
Enquanto torcia as roupas encharcadas, o pescador viu os reflexos do sol, desaparecerem escurecendo o dia e deixando antever uma figura em forma de nau vagueando pelas nuvens.
Assim, enquanto olhava estupefacto à sua volta, reparou na criatura ínfima sentindo um estremecimento interior.
- Quem és tu, perguntou ele contendo a admiração.
- Sou um ser que vive no mar e nas nuvens e que gosta de te vir admirar no teu afã de pescar sonhos, nuvens, reflexos do céu no chão e no mar, respondeu o ser.
- E o que estás aqui a fazer? Nunca te vi em outras vezes, tantas que por aqui ando.
- Sempre estive e estarei aqui, respondeu o ser. Sou o teu sonho e por isso te acompanho sempre.
- Então porque só agora me falaste e eu te vi?
- Porque foi hoje que te descuidaste com a onda ciumenta e eu vim para te acudir – respondeu, continuando:
- Vês aquela nuvem que forma uma nau? – é onde eu me desloco normalmente quando me quero dar a conhecer. Vim buscar-te. Tenho lá um banho quentinho, com algas do mar e sais do céu, para te aquecer e onde poderás realizar os teus sonhos enquanto quiseres e continuar a pescar reflexos, pedaços de céu-mar e sonhos...

Foto de Z. a quem agradeço a amabilidade

27/11/10

Ao romper do sol...




Sim,
procuro-te nos ventos mais agrestes, nos verdes ramos, nos penhascos
que se debruçam sobre ti, mar.
Sim, procuro em todos os azuis que os
meus olhos ainda que fechados, alcançam.
Procuro-te sim, mas apenas me
encontro cada dia mais a mim...e tu?
és sombra que te diluis mal o sol quer romper...
estendo-te a mão, ...
estendes-me a mão, mas tanta a distância...,
essa força que em vez de aproximar, suga, para o nunca mais...

Renascer

(...)

beijo-te com a ternura do sol
beijo-te com a ternura do mar
no beijo ao sol quando se põe
com a harmonia do mar quando acorda
sinto na tua boca,
o ondular

do mar
o sabor a maresia
e mais não somos
do que pedaços
de mar e sol

na alegria inebriante do renascer.

 

Foto: minha

 

21/11/10

Com poesia no olhar...


Esperava há tanto que acontecesse um milagre. Costumava ficar ali esquecida escutando apenas.  Tinha já ouvido dizer que não havia milagres. Mas ela acreditava. Sabia no fundo de si mesma que sim, existiam, quando queremos muito.
Estava ali, parada ouvindo apenas o eco dos passos na calçada, que lhe chegavam de quem passava ao lado, sem sequer se deter para um olhar ainda que breve, perdendo-se sempre ao longe, ou o arrulho dos pombos esvoaçando por cima da sua cabeça, ou vez em quando, a criançada que por ali corria naquela alegre chilreada que lhes é tão própria.
Nessas alturas, ainda alimentava a secreta esperança de serem elas, as crianças, a realizarem o milagre. Mas não. A cada dia que ouvia estes sons, desviava ligeiramente a cortina para ver o que se passava mas, deparava sempre com aquele recorte de azulejo azulado onde se podiam ver os efeitos da marca do tempo, num passar vagaroso de dias que se transformaram em anos.
Sabia, ou melhor, suspeitava, que para além daquela parede devia haver  verdes prados salpicados de flores multicolores, mares, rios e, talvez, alguém que lhe alterasse a rotina, destino dos seus dias, que a mantinha cativa.
Tanto desejou que esse desejo se materializou.
Certo dia, aconteceu passar por lá um pescador de pérolas, com poesia no olhar, que a captou e a trouxe da parede onde jazia cativa, a ver o mar...

Foto oferecida pelo amigo JR a quem agradeço

19/11/10

Um dia, com as cores da minha fantasia pinto-te, quadro feito magia...


Foto da Xana

09/11/10

Crescer a olhos vistos


Criança pequena, mal se segurava ainda nas pernas e nas palavras, seguia o pai, enquanto este tratava da horta, saltitando alegremente.
O canteiro das alfaces acabadas de plantar, pareciam-lhes luzinhas verdes todas muito certinhas em carreira, em cima da maracha que havia de lhes ser suporte para regas futuras e dificultando o acesso às lesmas e caracóis tão amigos de se banquetearem com aquelas folhinhas frescas.
A cada dia que passava mais e mais se notava o crescimento daquelas folhinhas dando forma e corpo à adulta alface.
Certa vez a menina, sempre atenta aos gestos e palavras do pai ouviu-o dizer:
- As alfaces crescem a olhos vistos!
Estas palavras ecoaram naquela cabecinha pequena, maravilhando-a.
No dia seguinte, sem dizer nada a ninguém, sentou-se muito quietinha, junto do canteiro das alfaces e por ali ficou esquecida.
A mãe, dando pela sua falta, procurou-a e encontrando-a junto ao canteiro, perguntou-lhe:
- Filha o que fazes aqui? Andava doida à tua procura!
A menina, muito calmamente, olhando a mãe, com aquela ternura e simplicidade que só as crianças conseguem, disse-lhe:
- Estou a ver crescer as alfaces.
- A ver crescer as alfaces? – perguntou a mãe, muito surpreendida.
- Sim, respondeu a menina. O pai disse que as alfaces crescem a olhos vistos...
Como é bom ser criança!


foto da net

08/11/10

Voar, apenas

Vou por aí abrindo as asas e olhando o infinito...

desconheço o autor da foto, a quem agradeço.

02/11/10

Olhar...

Sento-me olhando este mar, mais parecendo estrada atapetada de sumo de romã e mel de rosmaninho. 
Ao longe os edifícios erguem-se no alto tentando tocar as nuvens.
Mais além, as nuvens ciosas do mar, vêm tocar-lhe beijando-o ao de leve e carregando-o no seu interior, até aos céus...
Um dia será chuva e lavará a minha cabeça em união com a Terra...

Foto de JR a quem muito agradeço